|
Um ruído em frente à casa chamou-me a atenção.
Ainda bem que as luzes não tinham sido acesas, a sala
estava numa penumbra onde mal se podiam distinguir os contornos
dos móveis. Antes assim. No lusco-fusco do anoitecer,
vi uma sombra esgueirando-se em direção à
varanda, evitando os lugares luminosos. Fiquei intrigado.
Quem estaria chegando, justamente naquele momento?
A porta estava trancada, graças a Deus. Mas alguém
forçou o trinco pelo lado de fora, suavemente, para
não chamar a atenção. Depois um silêncio,
nova tentativa com o trinco, comecei a ficar apavorado. Por
precaução, escondi-me sob a mesa, evitando esbarrar
nos móveis. Podia ser um ladrão, eu ali sozinho,
não queria enfrentar quem viesse preparado. E para
minha aflição, a porta abriu-se, devagar, devagarinho,
cautelosamente, e um pouco de luz da iluminação
pública brilhou no assoalho bem cuidado. De pé,
contra a luz, um vulto estudava o ambiente. Tratava-se, com
toda a certeza, de elemento suspeito. Encolhi-me sob a mesa,
como manda o bom senso nessas ocasiões.
O vulto entrou pisando manso, fechou a porta atrás
de si, quase sem ruído. De ouvido, pareceu-me que havia
usado uma chave. Chave?! Seria possível? Mas como a
conseguira? Só havia duas cópias da chave. Como
ele teria...? Será que a empregada...? Ah! mas é
claro! Vai ver que... Ora, o que não se consegue hoje
em dia, através de uma empregada doméstica.
O melhor agora seria esperar que ele fizesse uma limpeza.
Era um tipo atarracado, baixo, ombros largos, e sem dúvida
alguma estava armado. Que levasse tudo o que pudesse e não
me encontrasse ali. Mas ele sentou-se. Coisa estranha. Sentou-se,
esticou as pernas, cruzou as mãos na nuca e tirou um
dos sapatos. Ei, não vai pegar as jóias? Tirou
o outro sapato, olho para fora e ficou imóvel. Parecia
muito seguro, pensava que não havia ninguém
na casa.
De repente levantou-se. Ah! finalmente! E foi sem sapatos,
para não fazer ruídos. Elemento experiente,
pensei comigo. Mas não... ei, aí não
tem jóia. Afinal o que é que você quer?
Lentamente abriu o bar, tateou no escuro, pegou uma garrafa
e recolocou-a no lugar. Eu não entendia mais nada.
Era muito estranho. Além de tudo, parecia um tipo familiar,
conhecia a casa toda e até sabia onde estava a garrafa
de uísque. Não, nem tanto assim. Os copos caíram,
o vulto afastou-se repentinamente do bar, segurando a garrafa
e virou-se para a janela. Depois olhou para os lados, amedrontado,
até acalmar-se um pouco. Recolocou os copos no lugar,
pegou um deles e serviu uma dose. Repôs a garrafa, deixou
o bar aberto e foi à geladeira. Sem nenhuma cerimônia,
enfiou a mão na direção certa onde deveria
estar o gelo. Mas sim senhor, heim! Sentou-se de novo, esticou
as pernas e cruzou um pé sobre o outro. Eu ali, debaixo
da mesa, cada vez mais encolhido.
Fumou dois cigarros e serviu-se três vezes de uísque.
Era calmo demais para ser um bom ladrão. Quando iria
começar o saque, não era possível prever.
Ficou ali um tempão, parece que cochilou, e eu esperando
os acontecimentos.
De repente, um barulho fora, alguém se aproximava.
O vulto esticou-se ágil e postou-se atrás da
porta. Meu Deus! Que será que ele vai fazer? Estive
a ponto de dar um berro, mas contive a respiração.
Podia ser pior. A porta abriu-se, uma mulher entrou e, no
susto, deixou cair um pacote que tinha nas mãos. O
sujeito atarracado de ombros largos segurou-a por trás,
uma das mãos tapando a boca e sufocando o grito de
terror. No meu desespero, ouvi a voz fria e cínica:
"Fique quieta, que é melhor." Por algum tempo,
fiquei paralisado. A mulher imóvel, parecia desmaiada.
Até que o sujeito afrouxou a mão e ela, quase
aos prantos gritou no desabafo:
- Ahhhhh! não faça isso comigo, que eu morro
de susto.
- Por que você demorou tanto?
- Estava trabalhando, ora! E você, quantos copos já
tomou? Olhaí, quebrei o presente de aniversário
da Lola. Querido, não brinque assim, tem tanto assalto
por aqui, eu vivo tão apavorada. Assim não deixo
mais você levar a chave. E se fosse um ladrão?
- Já tinha pego as jóias e já tinha ido
embora.
- Não brinque mais assim, por favor! E feche a porta,
antes que entre um ladrão de verdade. Ei! cadê
minhas jóias?
- Eu roubei, ué.
- É sério! Alguém abriu o cofre. Olhali,
debaixo da mesa... tem um homem ali. Socorro!
Mal tive tempo de atirar uma cadeira contra as pernas do baixinho
atarracado. Enquanto ele caía vociferando palavrões,
precipitei-me pela porta afora, ouvindo atrás de mim
os gritos da mulher.
Nunca mais assaltei naquele bairro.
|