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Droga de chuva! Justo hoje, parece de propósito. Justo
hoje que eu não tenho vontade de voltar pra casa. Também,
a Cecília precisava fazer essa brincadeira? Dois anos
já, quase três, pô, e de repente, assim,
sem mais nem essa, telefona que vai se mandar, pensar um pouco
na vida, e eu fico aqui feito bobo, nem navios tenho pra ficar
vendo. Voltar pra casa não dá, é masoquismo.
Ficar lá fazendo o quê? Curtindo dor de cotovelo?
O jeito é andar, andar bastante, sem rumo, ficar morto
de cansaço, depois encher a cara, tomar um mé
em cada bar, até sair catando frango pelas ruas, caindo
pelas tabelas. Aí eu volto, caio na cama e me apago.
Mas agora não. Só que essa chuva... Ô
chuva chata!
Lá vem aquele imbecil do Fernando. Deixa eu me esconder
logo, antes que ele me veja. Senão, é aquela
conversa mole, tá sempre perguntando como vai a Cecília...
um chato de galocha. Não estou a fim de falar dela
com ninguém. Muito menos com ele. Se me descobre aqui,
estou perdido. Pior que ficar sozinho é ter de contar
aos outros que fiquei sozinho. Será que me viu? Não,
ainda não. Ufa! Dessa eu escapei.
Melhor enfrentar a chuva. Parado aqui, acabo encontrando alguém.
Se tivesse trazido um guarda-chuva... Ah! vai assim mesmo.
Pra quem está na fossa não faz muita diferença.
Tomar um conhaque pra rebater o resfriado. Pronto! Esquenta
por dentro. Vamos lá... Ih! mas a chuva apertou, essa
não! Esperar aqui um pouco.
Teatro? É sim, isto aqui é um teatro. Olha só
onde eu vim parar. Quem sabe se... É, não deixa
de ser uma idéia. Fazer o quê com essa chuva?
Esperar de pé aqui também não vale a
pena. Melhor entrar, ver a peça, me distraio um pouco,
esqueço aquela maldita, depois vou encher a cara. Até
lá a chuva terá ido embora. É, vamos
ver. Uma, por favor. Ahn? F-8? Serve. Já vai começar?
Ótimo.
Cença, cença. Opa, desculpe! Que escuro, credo!
Sorte, peguei um bom lugar. Que peça que é mesmo?
Ô, mas nem vi o nome da peça. Chato perguntar
pro vizinho. Ainda bem que deste lado não tem ninguém.
Posso me acomodar melhor, esticar as pernas. Ih! Lá
vem alguém. Perdi meu conforto. Mas esse cara parece
que vem caindo. De onde saiu essa figura? Ué! cabeça
fora do lugar? Lenço vermelho no pescoço...
deve estar com dor de garganta. Então por que saiu
na chuva? Tipo esquisito. Ahn? Não, não, faz
tempo não, uns três minutinhos. O nome da peça?
Chi! Sinto muito, mas eu também não vi. Eh!
esse cara vai ficar fazendo perguntas o tempo todo? Eu mudo
de lugar. Deixa ele resmungar. Mas que resmungue sozinho,
olhando para o palco, senão eu vou tomar um banho de
saliva. Como cospe esse cara! E lá vem ele de novo.
Ô meu, eu não sei nada sobre a peça, já
lhe disse. Resmunga, resmunga. E cospe. Quando ele fala me
respinga o rosto todo. Mas tinha de ser justo hoje? Não
vê que já tenho meus problemas particulares,
que a Cecília me telefonou dizendo que não quer
mais saber de mim? Quero paz, sossego, não me venha
perguntar da peça, que eu nem tô aí, não
consigo acompanhar... O quê? Navalha? Esse cara é
doido. Sim, eu sei, mulher, todo mundo tem, isto é...
Ah! me deixa em paz! O cara é doido mesmo. E sorri
esquisito, olhar distante, apagado, a luz do palco é
muito fraca. E os dentes, caramba! Dentes cor-de-rosa, onde
se viu isso? Mas entre os dentes é bem vermelho, vermelhinho
mesmo, quando os refletores iluminam dá pra ver um
risco vermelho separando os dentes. Que que esse cara andou
comendo na janta? Justo comigo, poxa! Eu quero paz, esquecer
a Cecília, depois beber, beber, beber e me esquecer
a mim mesmo. E essa história de briga, de navalha,
de mulher... Que mulher é essa, pô? É
sua? Minha não, eu não briguei, só levei
um fora negativo. Machucou, sabe? E toma respingo no rosto.
Será que esse cara, nessa idade, ainda não aprendeu
a conversar? Tem gente fazendo chiu. Ele não liga,
navalha no pescoço, já sei. Brigou com ela,
também já entendi, mas o que que eu tenho com
isso? Volta pra casa, conversa com ela, faz as pazes, faz
amor, a vida é isso mesmo. Me larga, pô, que
mão gelada! Larga, larga! Cença, cença,
voumimbora. Opa, desculpe! Desculpe, tá escuro, não
dá pra ver direito. Pisei no seu pé? Que noite
infernal!
Ah! até que enfim! Ar puro, finalmente, sem ninguém
cuspindo no meu rosto. Por que esse cara tinha de me encontrar
justamente hoje não sei. Não bastasse o meu
drama... E, ainda por cima, que história esquisita!
Ele só fala de briga com a mulher, de navalha no pescoço...
que que é isso, meu Deus! Não vi a peça
direito, saí antes do fim... que droga! Sei lá
se era boa ou não. Navalha no pescoço? Mas então...
Ai, ai, esse cara matou a mulher, deu uma navalhada no pescoço
dela, matou a coitada e veio ver teatro. Que cara frio, calculista...
é caso de polícia... ele sabia que no teatro
ningúem pensaria em procurá-lo. Um telefone
urgente, é preciso avisar a polícia... ele está
aqui, a polícia chega a tempo. O cara é perigoso...
e eu sentado perto dele... cruzes! Um orelhão... um
orelhão... Ali, naquela loja, vitrine iluminada, fico
mais tranqüilo, posso ver no vidro quem vem por trás.
Só pode ser isto: o cara matou a mulher e está
cantando vantagem. Tenho de avisar a polícia. Alô!
É da polícia? Diga uma coisa: não aconteceu
esta noite um caso de degolamento? É, cortar o pescoço
com navalha, briga de marido e mulher. Verdade? Aconteceu
mesmo? Pois o assassino está aqui no teatro, venham
depressa, tenho certeza que é ele. Está conturbado,
isso acontece com todo assassino, não é mesmo?
Vocês da polícia devem entender disso. Mas ele
está aqui. Matou a mulher e fugiu para o teatro, a
fim de despistar. Se vierem logo, poderão prendê-lo
assim que a peça acabar. Ele tem um lenço vermelho
no pescoço e... Como? Não estão procurando
o assassino? Não entendo. Mas ele está aqui,
estou dizendo que ele está aqui. Venham depressa. Se
ele fugir, a culpa é de vocês. Como assim? Não
entendi. Houve um crime, não houve? Então por
que vocês não querem prender o assassino? O quê?...
O... o assassino já se entregou? Não diga! Ah!
então o assassino é a mulher? É, agora
faz sentido. Golpe de navalha no pescoço, quase separou
a cabeça do corpo, matou o marido de uma vez. Ah! sei,
ela confessou tudo. Briga feia, hein! Ô golpe bem dado!
Benza Deus! O quê? Não acharam a vítima?...
quer dizer, o marido assassinado? Que negócio é
esse? Onde é que foi parar o cadáver? Gente
morta não sai do lugar, moço, explique isso
direito. Que esquisito! A assassina se entregou, mas o cadáver
sumiu. Ô meu, não brinque comigo! Não,
não, peraí, eu preciso falar com você...
alô, alô...
E agora? Que que eu faço com este telefone na mão?
Como é que pode? A mulher matou o marido e se entregou
à polícia... E o marido, onde está? Uma
piscina de sangue no apartamento... Que é isso? Catapora?
Ué! será que eu estou com catapora?... essas
pintinhas... epa!... isso é sangue! Alô polícia,
não desligue, pelo amor de Deus! É sangue...
estou todo respingado de sangue... posso ver pela vitrine.
E esse vulto? Que vulto é esse atrás de mim?
Sorridente, lenço vermelho no pescoço... Tem
um risco vermelho entre os dentes... sorrindo pra mim... Alô,
polícia, pelo amor de Deus, não desligue...
ele está aqui... A vítima está aqui...
Socorro!
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